Fernanda Young

A Louca Debaixo do Branco é um projeto da escritora,
roteirista e apresentadora Fernanda Young. Concebida
como um livro-instalação por Diógenes Moura, diretor
artístico do projeto, A Louca Debaixo do Branco investiga
a construção do mito amoroso através da personificação
da noiva, figura central do novo romance homônimo
escrito por Young - o décimo da sua carreia.

Resultado de quase dois anos de trabalho, a exposição usa a figura da noiva como objeto de investigação do amor, afinal, como define Fernanda: “só no amor somos iguais. Somos os mesmos quando amamos, quando somos abandonados, quando sofremos, quando desconfiamos que deixamos de amar”. Vestida de noiva, Fernanda Young mostra na exposição que suas imagens são verdadeiros autorretratos diante da sua dor, do seu amor, do desamor e do amor dos outros. Nesta reflexão, ela mesma é o espelho de todo o processo expográfico, que conta com coleções particulares, textos, poemas, bordados, diários, vídeos e interação via internet entre o público e a autora. Além disso, o livro-instalação traz uma iconografia selecionada na coleção do crítico e pesquisador Rubens Fernandes Junior, imagens gentilmente cedidas pela Galeria FASS dos fotógrafos Jean Manzon e Martin Chambi e ensaios de fotógrafos como Bob Wolfenson, Hidelbrando de Castro, Daniel Klajmic, Ludovic Carème, Paulo Vainer, Henrique Gendre, entre outros. Além de quatro vídeos (dois da artista, um de Raquel Zimmermann e um de Cláudio Belizário) e um filme de Rodrigo Bernardo.





E se eu ficasse eterna?*

A Louca Debaixo do Branco é um jogo entre espelhos. Trata-se de um autorretrato e de um trauma que se revela a partir de um personagem principal – a noiva – com seus signos, suas representações: o dia do casamento, determinadas histórias de amor, dor, vida e morte que surgiram do romance homônimo escrito por Fernanda Young, artista que também é roteirista e apresentadora de TV. Inteiramente concebida como um livro-instalação, seu tema central é interpretado a partir de ensaios fotográficos, iconografia selecionada na coleção do crítico e pesquisador Rubens Fernandes Junior, fotopintura, esculturas, textos, poemas, diários, vídeos e interação via internet entre o público e a autora. Portanto, trata-se de um livro aberto que poderá ser percorrido em diversos materiais. Inclusive esse material de que somos feitos todos nós: que nos faz acreditar em alguém num piscar de olhos e desacreditar para sempre nesse mesmo indivíduo alguns anos depois, debaixo do mesmo teto, entre a mesa da sala e o espelho do banheiro, entre a luz tênue do abajur e o sono inocente das crianças, entre a porta de entrada e a solidão escorrendo pelas paredes. Então, de que material vulnerável somos feitos todos nós? Assim sendo, temos um livro-instalação concebido por palavras que poderão se modificar a cada instante. Como uma fotografia para a qual olhamos mais de duas vezes.


A partir da lembrança de sua participação como dama de honra no casamento de uma cabeleireira, quando jogou todo o estoque de pétalas de rosas antes que a noiva alcançasse o altar, a autora Fernanda Young trata essa ‘lesão por extensão’ com diversos olhares, investindo no amor como matéria-prima para a existência, desacreditando nesse mesmo amor que leva ao desamor e encarando a vida – que além de ser crua, poderá sangrar. E mesmo sangrando, ela continua acreditando no amor, nas artimanhas do discurso amoroso. É capaz até de fazer promessas, acender velas. Por isso ela mesma é o espelho de todo o processo expográfico em A Louca Debaixo do Branco. Vestida de noiva, seus retratos são autorretratos diante da sua dor, do seu prazer, do seu amor, do desamor, do desejo e do amor dos outros. Dessa ‘ideologia’ que faz toda noiva pensar que é única, para sempre: um trauma religioso, mais que uma tatuagem. Muito menos que uma verdade. Muito mais que uma mentira. Diante de si mesma, a autora é poeta e material de consumo. Lida com o seu passado e com as possibilidades e impossibilidades que apenas o tempo, que poderá ser afável e cruel, apenas ele, o tempo, será capaz de decidir. Por isso temos uma iconografia da representação diante da realidade de uma iconografia da vida real, registrada entre 1930 e 1970 (a coleção de Rubens Fernandes Junior). Diante das palavras impressas e de uma imagem idealizada, A Louca Debaixo do Branco poderá ser encontrada nas páginas de um romance. Cabe a ela, a louca – louca, eu? Não, loucas são as outras –, refletida no espelho, permanecer onde está ou enfrentar o despenhadeiro para chegar à página seguinte.


Diógenes Moura
Escritor e Curador de fotografia

* Hilda Hilst. da morte. odes mínimas. São Paulo: Nankin/Noroît, 1998. 135p.